segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O mito do lucro

No fim de semana que passou participei numa agradável tertúlia com mais dois amigos, ambos formados em Gestão, sobre o objectivo principal de uma empresa.
Ficou claro que, para a mais recente fornada de gestores, o lucro continua a ser o objectivo principal de uma empresa. Discordei e fui imediatamente inundado com inúmeros argumentos, pois eles são os formados em Gestão e não eu.
Fiz apenas uma simples retórica. Uma empresa não existe sem clientes; os clientes pagam pelos serviços ou produtos da empresa; os clientes fazem parte da sociedade, logo a empresa está a servir a sociedade. Daí a minha opinião de que é este o principal objectivo de uma empresa: servir a sociedade, criar riqueza na mesma, constituindo uma mais valia à própria. Assim o lucro é apenas o resultado que vem por acréscimo e que confirma a validade do negócio.
No ultra competitivo mundo em que vivemos as empresas que mais apostem na inovação e qualidade são as que mais probabilidades têm de sucesso, portanto o seu objectivo principal é procurar a diferenciação para com a concorrência e só isso lhes poderá, depois, trazer o lucro.
É impensável nos dias que correm, para um empreendedor, iniciar uma empresa sem estudar a concorrência, para melhor compreender e encontrar estratégias que permitam servir melhor os potenciais clientes. Por isso mesmo a Gestão Pós-venda adquire cada vez maior importância.
A insistência no lucro conduz à maximização do mesmo, que por seu lado conduz à especulação, com os resultados que todos, hoje, bem conhecemos. O conceito do lucro e a maximização do mesmo conduz a um crescimento insustentável, que é algo que os grandes teóricos da Gestão há muito ensinam.
Mas infelizmente, e como eu pude constatar, continuamos a tropeçar na mesma pedra.

17 Contrastes:

Dina disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Dina disse...

Infelizmente a sociedade assenta em bases cada vez mais frágeis...
No emprego o que é importante é subir,seja como for, ter uma atitude de prepotência é meio caminho andado para chegar lá...e cada vez menos conta a capacidade e a competência.
Quanto ao lucro...quanto mais melhor, mesmo que por tempo limitado. Porque quem vai acabar por sofrer as consequências são os que trabalharam e não os que geriram.
Sustentabilidade??
Dá muito trabalho...só os trouxas se preocupam com essas coisas.
Basta olharmos para quem nos governa...

Maldonado disse...

Apesar de discordar de ti em muitos campos, neste estou de acordo contigo.
De facto os nossos azeiteiros (desde quando é que são empresários?!) só vêem o lucro fácil. Quando a empresa não cumpre esse objectivo, encerram-na logo. E assim vai funcionando a nossa economia...
Esquecem-se que, dada a conjuntura da globalização, haverá sempre mão-de-obra mais barata que a nossa, nomeadamente do leste europeu e da Ásia (China e Índia). É uma triste verdade, mas há que reconhecê-la.
Uma empresa para crescer tem que apostar em inúmeros factores, nomeadamente a motivação e a modernização. Quantos azeiteiros se preocupam em modernizar as suas empresas com novas tecnologias? E motivar os trabalhadores com regalias em conformidade com o seu índice de produção?
Só querem ter lucro para alimentar os seus luxos pessoais, a empresa que se lixe.

JB disse...

Dizem que em Portugal poucos são os empresários, são patrões. Quantos há que dão verdadeiramente importância aos seus funcionários e os colocam como parceiros nas suas empresas? Os poucos actos de gestão que têm é a procura do lucro e quanto mais rápido melhor, mesmo que seja à custa dos outros.Dos outros exigem que sejam participativos no trabalho, e só no trabalho, quanto mais horas melhor, porque mais lucro têm e aí são colaboradores. No que toca aos salários, quanto menos pagarem mais lucro têm , e aí já são trabalhadores com deveres. A gestão duma empresa é muito mais do que a procura do lucro fácil e rápido, e quem assim não pensar,é meio caminho andado para a falência. Ainda há empresas que julgam os seus funcionários como nº e ai dos que têm a ousadia de contestar. Que tenham lucro é o melhor para todos mas que não sejam só para um lado.

Ferreira-Pinto disse...

Os comentários acima já abordam algumas questões importantes a esta temática.

Do conteúdo de um (nomeadamente quanto aos custos com a mão-de-obra), resulta uma interrogação que me tem apoquentado e para a qual, francamente, ainda não descortinei resposta (mas isso deve ser por ser jurista e não especialista em gestão): se a política empresarial ou patronal (para cobrir ambos os casos) assenta na maximização do lucro e uma das formas de lá chegar é diminuir custos, nomeadamente com mão-de-obra, deslocalizando e deixando largas fatias da população activa desempregada, não têm também essas empresas à sua frente (tarde ou cedo) um problema?

Isto porque, penso eu, enquanto a lógica do mercado continuar a assentar nestas premissas, quem está desempregado, perde poder de compra, certo?
E se o não tem, deixa de poder adquirir muitos bens de consumo?

Ora, sendo assim, e porque as tais empresas querem manter baixos os custos da mão-de-obra para onde foram, vão vender em catadupa a quem?

pedro oliveira disse...

eheheh, ainda vais para o BE.
Fora de brincadeiras é evidente que sem clientes, sem colaboradores,sem fornecedores e sem responsabilidade social, uma empresa não tem razão de ser. Tem de ganhar dinheiro? Pois claro que tem, mas tem de estar preocupada em satisfazer as partes envolvidas, o resto vem por acréscimo.Sugiro que leias sobre o Oceano Azul, estou a ter formação e há um livro com o mesmo nome que é bom para indicares aos teus amigos.
abr

André Miguel disse...

Dina,
Ora aí está o conceito que resume tudo: sustentabilidade.
Basta crescer com pés bem assentes na terra e com bom senso para todos saiam a ganhar. Principalmente a longevidade das empresas.

André Miguel disse...

Maldonado,
Isso é por causa da nossa tão comum falta de visão a longo prazo.
Dá muito trabalho criar uma empresa com bases sólidas e bons alicerces, que garanta a sua longevidade, mas por outro lado o retorno é sem dúvida maior. Em Portugal pensa-se demasiado curto, em todos os aspectos, a começar pelos políticos que pensam apenas em termos de legislatura e não a longo prazo...

André Miguel disse...

JB,
Tem toda a razão.
Um patrão dá ordens, um empresário cria (é um empreendedor) e um gestor gere. São coisas completamente diferentes, mas infelizmente o primeiro exemplar é o que mais existe em Portugal.

André Miguel disse...

Ferreira-Pinto,
Brilhante comentário, mesmo na mouche!
Por acaso também penso imenso em como é que a deslocação da mão de obra para países mais "baratos" vai permitir manter o nível de vida das grandes economias... Deve ter algo a ver com as teorias dos ciclos económicos, que bem vistas as coisas não explicam coisa nenhuma (os economistas são excelentes a explicar o que aconteceu, mas péssimos a prever o amanhã), simplesmente nos mostram que os ciclos acontecem porque o mercado é uma imensa "pescadinha de rabo na boca".

André Miguel disse...

Pedro,
Se eu fosse do BE dizia que as empresas têm todas que dar prejuízos, porque os empregados têm que ganhar todos mais que os executivos; e que o gerente, director ou CEO é apenas uma figura decorativa, que só serve para assinar o cheque dos ordenados, porque não percebe nada daquilo que faz! Ehehehe!
O capitalismo, como tudo na vida, só devia ter uma maneira de ser praticado: bem e de forma inteligente.
Não conheço o livro, mas agradeço a dica, vou tentar conhecer.
Abraço.

Anónimo disse...

Quando é que alguém olha para esta maravilha chamada ELVAS com visão ?
Lindas as fotos.
Aos comentadores que residem fora de Elvas, convido-os a visitar-os, aqui encontrarão um povo acolhedor e hospitaleiro e boa comida.
Quando é que alguém se digna a não brincar com o turismo?

Cumps
A Atenta

João disse...

Bem André, estou neste momento a estudar economia. O objectivo da empresa é de facto criar valor para a sociedade no entanto tem de gerar lucro e o objectivo será sempre gerar o lucro máximo, e esse objectivo pode ser positivo para a sociedade, basta ver estratégias que têem sido seguidas pelas mais diferenças empresas como Swatch com os seus relógios que dão dinheiro a para se construirem instituições e mais recentemente as águas Luso que se associaram à luta ao cancro da mama.

Todos estes projectos de responsabilidade social podem baixar os lucros a curto prazo, mas normalmente irão fazer com que eles subam, porque com estas estratégias as empresas conseguem uma enorme visibilidade sem gastarem dinheiro em publicidade. No entanto estas estratégias estão aliadas a uma tentativa de maximização de lucro, esse deverá ser sempre o principal objectivo do gestor, criar valor para os seus accionistas porque se estes quiserem perder parte do seu lucro para apoiar a sociadade eles podem usar a percentagem de lucro que tiveram para o fazerem, não precisam que seja o gestor a fazê-lo.

O paradigma da maximização do lucro continua e irá continuar, apenas a maneira como o podemos conseguir é que pode mudar e cada vez mais se vê as empresas a usarem as mais diversas maneiras de o conseguirem, as actividades de responsabilidade social são apenas uma delas, porque para o accionista ter o lucro máximo a empresa não pode apenas trabalhar para eles mas para todo o meio que a rodeia (sociedade e empresas parceira, como uma transportadora por exemplo).

Espero não me ter estendido muito.

André Miguel disse...

Atenta,
Realmente já é hora de alguém começar a levar o turismo a sério em Elvas...

André Miguel disse...

João,
Antes de mais obrigado pelo teu comentário.
Recomendo-te vivamente a leitura da obra "Gestores, não MBA's" de Henry Mintzberg. Acerca do valor accionista está lá uma história giríssima, passada durante um mestrado Internacional de Gestão em Tóquio, onde o professor japonês pergunta aos alunos, executivos ocidentais, qual o objectivo de uma organização, prontamente um norte-americano responde que é criar valor accionista. A resposta do professor: se é para isso contratem-se os accionistas para gerir...
A maximização do lucro nunca foi sustentável, nem nunca será, pois conduz à especulação.
Já agora certamente conheces Peter Drucker, e as suas noções de responsabilidade social são ligeiramente diferentes das que hoje vemos. Hoje, na sua maioria, vai tendo apenas como objectivo o Marketing...

João disse...

Por acaso não sei o que ele defendia a nível de responsabilidade social, por isso se me quiseres dizer o que era agradecia, quanto à questão do marketing foi disso que falei no meu post.

E facto de para se criar valor existem os accionistas para gerir a empresa, a minha opinião de haverem gestores a fazer esse trabalho é pelo facto deles poderem desempenhar melhor esse factor e serem um meio de união dos accionista porque depois de escolhido o gestor é dele a responsabilidade de gerir a empresa e ele tem de decidir o que é melhor para a empresa e não 5 ou 6 pessoas que podem ter ideias divergentes.

André Miguel disse...

João,
Falei de Drucker nestes dois links:

http://contrastesebipolaridades.blogspot.com/2009/01/aprender-gerir-e-liderer-com-quem-sabe.html

http://contrastesebipolaridades.blogspot.com/2009/01/aprender-gerir-e-liderar-com-quem-sabe.html

Mas o melhor é leres as suas obras, pois tudo o que eu diga fica curto. Encontras tudo no livro "O essencial de Drucker".

"haverem gestores a fazer esse trabalho é pelo facto deles poderem desempenhar melhor esse factor"
Isto é lógico e todos pensam desta forma. O problema surge quando colocamos um gestor à frente de uma empresa que em nada se identifica com a mesma. Basta veres a dança dos CEO's nas grandes multinacionais, onde passam de gerir empresas de telecomunicações, para Bancos, depois para grandes grossistas, etc...