Apesar do que o título possa fazer crer não regressei, nem sei sei se o farei.
Só desde que regressei a Portugal consegui ter algum tempo livre para colocar a leitura em dia, sendo uma dessas leituras a Revista Exame na sua edição especial de Abril. E lá estava uma nova reportagem sobre Angola, desta feita intitulada "Nova Terra de Oportunidades", da autoria de Rosália Amorim.
Fiquei surpreso com o artigo, pois, continua a baralhar e dar de novo, contribuindo ainda mais para a ideia do título. No entanto este é logo desmentido quando a certa altura o artigo afirma que "em matéria de quadros executivos, hoje este mercado procura não os disponíveis, mas os melhores". O que é verdade. Hoje em dia já não é fácil ir para Angola, tal a enorme quantidade de quadros dispostos a isso, por via do desemprego. O problema é a própria disponibilidade dos melhores, sendo que estes têm, supostamente, posições confortáveis e dificilmente abdicarão da sua qualidade de vida... Não é fácil para quem recruta, pois preferem o recrutamento interno, nem para quem está desempregado e coloca aquele destino no mapa.
O artigo diz grandes verdades, que por acaso eu já tinha referido aqui no blogue, como por exemplo o facto das remunerações estarem a baixar e a ficar em linha com a Europa, assim como os elevados custos da habitação.
A surpresa surgiu quando li acerca da ida ou não da família com o expatriado, nas palavras de uma responsável da Psicoforma (empresa de recrutamento): "na maioria das situações a família ainda não acompanha o expatriado, situação que se compreende uma vez que as estruturas respeitantes aos sectores da saúde e ensino ainda são muito precárias". Isto é, em parte, falso e é bondoso para com as práticas das empresas portuguesas.
Quanto ao ensino é verdade que não abundam as escolas de qualidade, mas existem dois muito bons colégios privados, em Luanda, ambos Portugueses, com um ensino extremamente exigente, mas demasiado caros. E há ainda a Escola Portuguesa de Luanda.
Quanto à saúde também não há hospitais públicos de qualidade, mas existem inúmeras clínicas privadas com bons serviços. Digo por experiência própria, pois tive malária aquando da minha estadia e fui tratado de forma excelente, por médicos Angolanos numa clínica Angolana.
O problema não é a precariedade das infraestruturas, mas sim o elevado preço das existentes, pois a grande maioria das empresas lusas não está disposta a suportar esses custos à família do expatriado! Ao contrário daquilo que eu via nas empresas Norte-Americanas, Inglesas ou Brasileiras.
A verdade é que as empresas Portuguesas não estão preparadas para gerir expatriados mais a sua família. Basta constatar que aos preços actuais dos alugueres em Luanda (5 a 10 mil dólares mensais o apartamento) é mais rentável à empresa ocupar um apartamento com dois ou três "solteiros", que até podem partilhar a viatura de serviço. Já uma família acarreta mais um aluguer, mais uma viatura, mais custos de alimentação, etc...
Se fosse verdade o que diz o artigo então os investidores portugueses também não levariam a família para Angola, e não é isso que se vê. Vemos sim os empresários com as respectivas famílias, enquanto os funcionários vivem sozinhos. Ou a precariedade das infraestruturas é só para os segundos?
Há famílias de expatriados a viverem em Luanda, eu próprio estava com a minha mulher, mas são excepções à regra, uma ínfima minoria a comparar com as outras comunidades estrangeiras.
Estes factos explicam muito sobre o nosso modo de fazer as coisas, sobre a nossa mentalidade e sobre o atraso das nossas práticas. Mas que sirvam sobretudo para reflectirmos sobre a reduzida internacionalização das nossas empresas e o que isso acarreta para a nossa economia.